sábado, 5 de dezembro de 2009

ENTREVISTANDO A VOVÓ

“Nunca perdi um baile”, disse Lourdes Bento Melges, 76 anos, três filhos, 14 netos e dois bisnetos. Nasceu em São Paulo, capital e veio para o Paraná com 23 anos, casada com Pedro Melges.
O sorriso surge em seu rosto quando conta as histórias da adolescência. Aos quatorze anos, junto com a amigas, na semana do fim de ano, saía pela rua cumprimentando a todos que encontrava, para desejar um feliz ano novo.
Na época, as pessoas tinham um costume de dar dinheiro para as crianças quando eram cumprimentadas. “Eu já ia com a mão esticadinha”. Com esse dinheiro ela e as amigas iam viajar de bonde até Indianópolis ou Moema. Ressalta que hoje em dia, ninguém deseja um feliz ano novo, a não ser entre os parentes.
Com dezessete anos, numa visita a casa da tia, conheceu seu marido, hoje falecido, Pedro Melges. “Depois de uma semana, ele apareceu na minha casa, pedindo minha mão em namoro... nem lembrava o nome dele”. Conta que naquela época, era tudo formalmente decidido entre família. Não importava se a pessoa queria namorar, se a famíla concordasse era o suficiente.
Lourdes afirma que não gostava muito de Pedro, principalmente por que ele trabalhava e viajava muito para o Paraná. Às vezes ficava até seis meses longe, se correspondendo por cartas. Telefone existia, mas era só para os ricos.
Mesmo noiva continuava indo aos bailes de quadrilha e carnaval, que na época eram realizados no salão social da fábrica onde trabalhava. “Naquele tempo as pessoas trabalhavam e se aposentavam nas fábricas, hoje nem emprego tem”.
Chegou a a arranjar um namorado, chamado Celso. “Eu escondia a aliança de noivado com vários anéis, e ele me perguntava se eu gostava mesmo de todos” disse sorrindo. Mas uma amiga me descobriu e eu tive que terminar o namoro.
Rompeu o noivado com Pedro durante um tempo e arrumou outro namorado, chamado Antônio. Não sabia no que ele trabalhava, mas foi a pessoa de quem mais gostou. “As festas com ele eram animadas, eu chegava de madrugada, nos braços dele”.
A mãe de Lourdes, Felizbina, não concordava com o namoro. Retrucava que “Chegar carregada nos braços do namorado, estando os dois bêbados, não era sinal de romantismo”. Durante o namoro, que durou pouco, Felizbina faleceu e Lourdes cumpriu o prometido e terminou com Antônio.
Voltou a namorar Pedro, com quem se casou. Vieram para o Paraná e foram morar na Fazenda Maragogipe, em Jaguapitã. Pedro trabalhava como classificador de café e Lourdes como dona de casa.
Quando perguntada sobre uma paixão, respondeu “Macarronada... mas não posso comer... o médico proibiu... mas eu como, nem escondo... o que não mata, engorda ” mostrando o sorriso maroto.
Diz que não se arrepende de nada do que fez e que faria tudo novamente, só não ajudaria tanto as pessoas, principalmente os filhos. “Eu preciso de uma dentadura nova, meu filho tem uma fazenda e diz que não pode comprar... tomara que os dentes dos bois deles caiam todos”, praguejou gargalhando.

Lourdes (à esquerda)

André L. Scarate

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