Quando perguntamos a uma criança:” Qual desenho você mais gosta?“, sem pensar muito, a maioria delas respondem: “Pica-Pau”. E ao vermos o desenho realmente parece ser legal, a ave serelepe, as cores vibrantes, as correrias dos personagens, parece ser um desenho simples e inocente, é realmente ele nos chama atenção.
Porém, se pararmos para analisar, notamos que não é um desenho tão simples. Será que você já percebeu que o Pica-Pau sempre se dá bem? Você parou para pensar que ele sempre prejudica os outros para satisfazer a si próprio? Enfim, essas são alguns dos questionamentos que devem vir a nossa cabeça quando assistimos o tal desenho.
A fonoaudióloga, pedagoga e psicóloga Elza dias Pacheco, apresentou como tese de doutorado a desconstrução do livro O Pica-Pau: Herói ou Vilão. E será através deste que meus argumentos serão baseados.
Como disseram nas pesquisas as crianças adoram o Pica-pau porque “ele é pequeno, bonito, tem cores lindas a berrantes; além disso, é preguiçoso, muito esperto, faz tudo o que quer para defender o que é seu”, analisa Elza. Nessa pesquisa, o ranking foi o seguinte: Pica-pau em primeiro lugar com 82 indicações, seguido por A turma do Pateta, com 70, depois o Pernalonga com 58 e por fim o Máskara, com 42.
Para mostrar como tudo o que digo tem fundamento, trago aqui um episódio bem conhecido do personagem o “Freeway Fracas”, ou em português, “Auto-estrada fracassada”. Nesse episódio um engenheiro que constrói auto-estradas, precisa derrubar uma árvore que atrapalha na construção da via. Porém é justamente nessa árvore que o Pica-pau mora e ele faz de tudo para que sua moradia não seja destruída. Para conseguir o que quer, o personagem utiliza um machado, uma betoneira, dinamite, guindaste, trator e até um rolo compressor. Enfim, ele espanca, explode e destrói tudo o que vê pela frente para defender o seu lar da destruição.
Esse episódio é um dos mais comentados, pois nele fica bem clara a esperteza e o individualismo da ave protagonista. A sua casa é uma propriedade privada, não pode ser destruída por ninguém, por nenhum outro interesse que não seja o dele, nem que para isso, ele parta para a agressão. Nota-se aí o capitalismo impregnando a ideologia infantil, enquanto que valores morais, como tratar bem as pessoas, ficam em segundo plano.
Também deve ser analisado o mito do herói. Eles são sempre bonzinhos, fazem somente o que é certo, mesmo que de forma errada. Porém no caso do Pica-pau, existe uma contradição de valores. Nesse episódio, está sendo construída uma auto-estrada, logo, o bem ficaria ao lado da construção, pois é um bem público, fazendo que com assim, facilite a vida dos usuários da estrada, porém, para isso, é necessário que seja derrubada uma árvore. Entretanto, nada disso acontece, muito pelo contrário, o Pica-pau, egoísta como é, defende apenas o que é seu e que julga como sendo seu direito, deixando o bem social de lado.
Um outro símbolo importante é a questão do tempo, a mudança do domínio da vida, ou seja, quem coordena o mundo é o adulto, então quando a criança vê animais atuando como personagens, como se fossem seres humanos, para ela é incrível.
O desenho do Pica-pau foi criado em 1940 por Walter Lantz. O criador foi muito perturbado por um pássaro desse tipo que bicava seu telhado, muito irritado, ele criou um personagem violento, baseado na ave chata de seu teto. Porém, o bicho passou uma imagem distorcida a seu público. As crianças passaram a se identificar com o personagem.
Segundo uma entrevista feita com crianças por Elza Dias Pacheco, 90% delas gostariam de ser como ele. Elas dizem que ele sabe se defender bem, que ele sabe muito bem enganar os outros. Em uma outra entrevista, foi perguntado as crianças o porquê de elas gostarem tanto do desenho, e elas respondem: “ele rói a árvore e ela vai na cabeça dos outros”, ou ainda, “ele destrói as árvores e faz malvadezas.”.
No entanto, ao fazermos uma análise mais crítica, sabemos que na realidade o que é mostrado no desenho são contradições, ou seja, na realidade, não podemos agir da mesma forma que o personagem age no desenho, pois temos nossas leis, nossas regras, nossa moral. Os desenhos devem ser criativos, educativos, capazes de fazer com que as crianças aprendam algo verdadeiro e moralmente correto, a partir da realidade em que vivemos. Pensando também no que é melhor para os que vivem em torno dela, não somente no seu bem estar.
Mariama Pacífico.
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