quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Projeto promove inclusão social para deficientes

“Sempre falei isso... todo mundo é capaz de fazer, basta querer”. A declaração foi feita com muita dificuldade pela artesã Clélia Budach, 32 anos, portadora de paralisia cerebral desde o nascimento. Tamanha confiança é resultado da participação dela no projeto Ateliê de Escultura em Argila, que atende pessoas com necessidades especiais.

A mãe adotiva dela, a empresária Elza Budach conta que a participação da filha no ateliê supre a necessidade de convívio social. “Quando Clélia interage com outras pessoas, através das esculturas que faz, ela se sente realizada, recebe elogios, tenta estabelecer um diálogo e recebe a atenção das pessoas”.

O desenvolvimento pessoal e motor de Clélia podem ser observados através da evolução das obras, que melhoram cada vez mais. Batista confirma que ela tem dificuldades para realizar o trabalho. A primeira obra que produziu, não ficou em pé, mas isso não serviu para que Clélia desistisse da escultura.

Histórico

O Ateliê de Escultura em Argila foi criado pelo psicólogo e artista plástico Walmir Batista da Silva. Inicialmente, funcionava como oficina de artes plásticas. Numa parceria com a Escola de Reabilitação de Adolescentes, do distrito de Iguatemi, o projeto foi adaptado para funcionar como uma ferramenta de educação alternativa. O objetivo era reintegrar adolescentes infratores ao convívio social.

Após a desativação da escola, alguns alunos continuaram no novo espaço, cedido pelo Diretório Central dos Estudantes, na UEM. Outras pessoas da comunidade, bem como funcionários e alunos da universidade começaram a participar do Ateliê.

Ao entrar no curso de especialização em Ciências Morfofisiológicas, Batista mudou o foco para alunos com deficiência motora e da fala. O ateliê começou a funcionar como um espaço para desenvolver o indivíduo nos aspectos neurológico, psicológico e motor, através do conceito de neuroplasticidade.

Durante as aulas os alunos realizam exercícios motores amassando e modelando a argila. São estimulados a criar formas, sem interferências, o que desenvolve a liberdade de expressão deles.

Neuroplasticidade

A neuroplasticidade é a capacidade que o cérebro tem de se reajustar. Quando um neurônio é lesionado, é substituído pelos neurônios vizinhos, que assumem a sua função.

Segundo o professor do Departamento de Ciências Morfofisiológicas da UEM, Marcílio Hubner de Miranda Neto, orientador de Batista, quando os alunos manipulam a argila, os músculos são exercitados e os neurônios estimulados a trabalhar para aumentar o número de sinapses (ligações entre as células nervosas). “Quanto maior a sinapse, maior a eficiência do processamento de informações no cérebro”, diz.

Conquistas

“Meu filho renasceu.” Com essas palavras, o professor aposentado Edgar Souza explica as conquistas que o filho, o escultor Edvan Dias de Souza, 33 anos, obteve participando do projeto. Portador de paralisia cerebral desde o nascimento, Edvan possui uma lesão na parte do cérebro que controla a fala e os movimentos.

Segundo Edgar, o filho passava a maior parte dos dias dentro de casa. Como não tinha amigos, e não realizava nenhum tipo de atividade, Edvan sentia- se entediado. O desejo de mudar essa situação fez com que Edgar, junto com a esposa, procurasse ajuda.

Os pais dele souberam de um projeto realizado na UEM, que auxiliava pessoas com necessidades especiais. Entraram em contato e constataram que o auxílio era para indivíduos com deficiência mental, o que não era o caso.

Eles foram, então, direcionados para visitar o Centro de Vida Independente (CVI), que funciona no Colégio de Aplicação Pedagógica (CAP), na UEM. Ali foram convidados a inscreverem o filho no Ateliê.

Edgar e Vanda Souza não suspeitavam que ali começasse uma parceria de sucesso. Em 2005, sete anos após ingressar no projeto, Edvan teve as obras Torres Gêmeas e Equilíbrio, selecionadas para a Mostra Paranaense de Artes Visuais da Região Norte, sendo o único portador de deficiência classificado entre os finalistas.

A exposição trouxe visibilidade para Edvan. Em 2007, as obras dele foram vistas na Exposição Projeto Arte e Neuroplasticidade, que aconteceu no Maringá Park. Em 2009, o escultor se classificou para o Prêmio Sentidos, idealizado pela revista de mesmo nome, que foca a inclusão social de pessoas com deficiência.

Da amizade e parceria entre aluno e professor, surgiu um projeto cultural que têm o objetivo de expandir e oferecer os benefícios da modelagem em argila. Com a ajuda de Valmir, Edvan teve projeto aprovado pela Lei de Incentivo à Cultura de Maringá nesse ano, passando a atuar como produtor cultural no Centro Cultural João Paulo II..

O rapaz dá aulas para os alunos do Colégio João XXIII, e para crianças e adultos na Associação Maringaense dos Autistas, a AMA.

A mãe, Vanda Souza, conta que hoje o filho pratica atividades esportivas, têm mais amizades, consegue se comunicar com mais facilidade e se locomover com mais desenvoltura. “Ele ficou mais independente, mais confiante, até viaja sozinho”, diz.

Essa transformação foi fruto da paciência e do incentivo recebidos pelo professor.

Desafios

Edvan enxerga a escultura como um meio promotor de crescimento pessoal. Vindo de uma família apreciadora da arte, começou suas investidas na pintura, sem sucesso. Quando teve acesso às esculturas, viu sua veia artística despertar. “Eu demorei mais para descobrir que podia trabalhar com argila”, declara.

Desde o início, o escultor mostrou ter um grande talento, devido à complexidade de suas obras. As premiações e as exposições serviram para confirmar a boa qualidade das peças dele. Mas as conquistas não fizeram com que o artista deixasse de sofrer preconceitos, fato que contribui para sua participação na luta pela inclusão social.

O artesão é membro da diretoria do Centro de Vida Independente de Maringá. Visita escolas e empresas para contar a história de vida, e conscientizar as pessoas quanto às necessidades dos deficientes.

Mesmo tendo reconhecimento no meio artístico, o Edvan ainda enfrenta desafios no mercado de trabalho. O escultor foi aprovado em dois concursos que participou, sendo um em primeiro lugar para a vaga de auxiliar administrativo. Numa empresa não foi chamado pela deficiência na coordenação motora. Na Prefeitura Municipal não foi aceito sob a alegação de pouca agilidade para o trabalho.

Outro desafio para ele é provar que não é deficiente mental. Apesar apresentar dificuldades na fala e na coordenação motora, Edvan consegue desenvolver o raciocínio perfeitamente. “ Dia a dia preciso provar que sou capaz”, desabafa.

LOCAL DE ATENDIMENTO:
Bloco 6, na UEM.
Aulas às quartas e sextas-feiras à tarde e quintas-feiras de manhã e à tarde.
Telefone: 9942-5142
O espaço foi cedido por alunos do Diretório Central dos Estudantes da UEM.

Michele Silva / André Scarate / Sueli Nascimento

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